A equalização é, sem dúvida, um dos maiores desafios do freediving. Não importa o quanto você melhore a respiração, o relaxamento ou a técnica de nado — se a equalização falha, o mergulho para. É uma das habilidades que mais separa os praticantes que evoluem dos que ficam estagnados numa mesma profundidade.
Existem 4 técnicas principais de equalização no freediving: Valsalva, Frenzel, Mouthfill e BTV. Cada uma tem seu lugar, seu nível de dificuldade e sua aplicação prática. Neste post vamos apresentar as 4, explicar como funciona cada uma e dar uma ideia honesta do que esperar no processo de aprendizado.
Uma coisa importante antes de começar: todas essas técnicas levam tempo, prática e dedicação para serem dominadas. Não existe atalho. Mas entender como cada uma funciona já é um passo importante para saber onde você está e para onde quer ir.
A Valsalva é a técnica mais intuitiva e a primeira que a maioria das pessoas aprende — muitas vezes sem nem saber o nome. Consiste em tampar o nariz e soprar com pressão, usando os músculos respiratórios para empurrar ar em direção às trompas de Eustáquio e equilibrar a pressão nos ouvidos.
Como funciona: você fecha as narinas e faz força como se fosse assoar o nariz. O aumento de pressão no trato respiratório superior força a abertura das trompas de Eustáquio.
Para que serve: é eficaz em águas rasas, nos primeiros metros de mergulho. Muitos mergulhadores de scuba e snorkelers a usam com sucesso.
Limitações no freediving: a Valsalva usa os músculos respiratórios — os mesmos que controlam os pulmões. À medida que você desce e os pulmões se comprimem, fica cada vez mais difícil gerar pressão suficiente com essa técnica. Além disso, o esforço muscular consome mais oxigênio e vai contra um dos princípios fundamentais da apneia: o relaxamento. Por isso, a Valsalva tem um teto de profundidade e, no freediving, eventualmente precisa ser substituída pelo Frenzel.
Nível: iniciante / mergulhos rasos.
O Frenzel é a técnica ensinada a partir do Nível 2 nos cursos de freediving e a que abre as portas para profundidades maiores. A grande diferença em relação à Valsalva é que o Frenzel não usa os músculos respiratórios — em vez disso, usa a língua como um pistão para empurrar o ar para cima, enquanto a glote (a válvula na parte de trás da garganta) fica fechada.
Como funciona: você fecha as narinas e a glote, e tenta fazer um som de "K" ou "G" com a parte de trás da língua. A língua sobe e empurra uma pequena quantidade de ar para as trompas de Eustáquio, equalizando os ouvidos sem usar o ar dos pulmões — que fica isolado pela glote fechada.
Vantagens: por não depender dos pulmões, funciona mesmo em profundidades onde a Valsalva já não consegue gerar pressão suficiente. É mais eficiente, consome menos oxigênio e é mais compatível com o relaxamento necessário na apneia. Pode ser usado efetivamente até 20-30 metros ou mais com treino.
Dificuldade: esta é onde a maioria dos praticantes intermediários trava. O Frenzel exige consciência e controle de músculos que nunca usamos de forma isolada no dia a dia — a glote, o palato mole, a base da língua. Não é possível aprender só na água: requer prática em seco, às vezes com ferramentas específicas, e pode levar semanas ou até meses para ser executado de forma consistente. É completamente normal demorar.
Nível: intermediário / a partir de 10-15 metros.
O Mouthfill é uma evolução do Frenzel criada para resolver um problema específico das grandes profundidades: a partir de certo ponto (geralmente em torno de 30-40 metros), os pulmões estão tão comprimidos que não sobra ar suficiente para alimentar o Frenzel. O Mouthfill resolve isso armazenando uma reserva de ar na boca antes de chegar nessa profundidade.
Como funciona: em uma profundidade específica durante a descida — geralmente entre 15 e 20 metros, enquanto ainda há ar disponível nos pulmões — você faz uma última "carga" de ar para dentro da boca e das bochechas. Depois fecha a glote completamente, isolando esse ar dos pulmões. A partir daí, toda a equalização é feita usando apenas o ar armazenado na boca, com o movimento de língua do Frenzel.
Para que serve: é a técnica que permite mergulhar além dos 30-40 metros de forma consistente e segura.
Dificuldade: alta. Exige que o Frenzel já esteja bem consolidado, além de controle preciso da glote e do momento certo para fazer a carga de ar. É uma das técnicas mais desafiadoras do freediving e requer acompanhamento de um instrutor experiente.
Nível: avançado / a partir de 30-40 metros.
O BTV — cujo nome vem do francês e significa "abertura tubária voluntária" — é considerado a técnica mais avançada e também a mais difícil de aprender. A ideia é abrir as trompas de Eustáquio diretamente por controle muscular, sem precisar mover ar nenhum. Quando funciona, a equalização acontece de forma quase automática, simplesmente pela abertura das trompas.
Como funciona: através de controle direto dos músculos que rodeiam as trompas de Eustáquio, o praticante aprende a abri-las voluntariamente, sem soprar nem usar a língua.
Vantagens: quando dominada, é a técnica mais eficiente de todas — não consome ar, não exige esforço e pode ser mantida continuamente durante a descida.
Dificuldade: muito alta. Estima-se que apenas cerca de 30% das pessoas conseguem aprendê-la de forma confiável, mesmo com treinamento específico. Não é ensinada nos cursos padrão e requer um trabalho muito específico de conscientização muscular.
Nível: avançado / elite.
A resposta depende da sua profundidade e do seu nível atual:
| Profundidade | Técnica recomendada |
|---|---|
| 0 a 10m | Valsalva (funciona, mas comece a aprender Frenzel) |
| 10 a 30m | Frenzel |
| 30m ou mais | Mouthfill |
| Qualquer profundidade | BTV (se você conseguir aprender) |
Na prática, o caminho de evolução da maioria dos praticantes é: Valsalva → Frenzel → Mouthfill. O BTV é mais uma raridade do que um objetivo obrigatório.
Nenhuma dessas técnicas — especialmente o Frenzel e o Mouthfill — se aprende rapidamente. Exigem prática em seco, consistência, às vezes ferramentas de apoio e muita paciência. É completamente normal travar no Frenzel por semanas. É completamente normal sentir que "não está acontecendo nada". O processo faz parte.
O mais importante é não tentar forçar a equalização quando os ouvidos não abrem. Se sentir dor, suba imediatamente — nunca force. Uma ruptura de membrana timpânica é uma lesão séria que pode levar meses para se recuperar e, em casos graves, causar danos permanentes.
Em breve vamos publicar um guia prático com exercícios em seco para treinar o Frenzel — porque sabemos que é justamente aí que a maioria dos praticantes precisa de apoio.
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